25 de nov de 2010

Sexualidade, amor e paraplegia



A vida trouxe-me um acidente. O acidente trouxe-me uma paraplegia. A paraplegia trouxe-me a cadeira que roda. Onde então a limitação, se a vida continuou plena, em todos os seus sentidos? Se o amor não se acidentou. Se o companheirismo permaneceu intacto e a alegria foi a nuance. Meu querido companheiro, nós prosseguimos em nossos dias, presentes, sim cada dia  foi um presente diferente, e semeamos vida...germinamos vida...e acrescemos vida...em amor. Você se foi antes de mim, mas a nossa imagem plasmada na foto, para todo o sempre, historia a vida terrena...e onde você estiver...saiba que esse texto, abaixo, foi escrito por alguém que, como você e eu, e tantos de nós, que tivemos diferentes tipos de acidentes, soube compreender a importância do ser. Que muitos se juntem a nós e escrevam lindas histórias, sabendo que a vida é o que fazemos dela....e ela é sobretudo amor.

Hoje trago, pois, importante texto, escrito por Genaura Tormin, a primeira mulher advogada na profissão de delegada, que supriu, como ninguém, a sua paraplegia, provocada por um vírus.

É na troca de vivências que aprendemos um pouco mais, porque somos, sem dúvida alguma, eternos aprendizes.
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O ato de amar tem leveza, graça, ternura e beleza

Escrito por Genaura Tormin:
http://genaura.blogspot.com/
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O ato de amar tem leveza, graça, ternura, beleza... Um pouco de céu passeando pela natureza. A sexualidade é um atributo nato do ser humano.
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Com a mulher paraplégica não é diferente em decorrência de sua condição. Depende muito da altura da lesão e de sua parcialidade ou não. Cada lesão é peculiar, única. Cada caso é um caso, com respostas diferentes. Isso quer dizer que a interferência dessa condição no exercício da sexualidade é relativa.
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O termo sexualidade é amplo e está ligado à individualidade, aos valores herdados do berço, aos legados familiares e à influência do meio em que se vive, abrangendo algumas fantasias sócio-culturais, passadas pela mitologia grega e pelos conceitos de beleza, atribuídos à mulher ao longo dos tempos.
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A supremacia masculina revela-se nessa relação, ostentando um modelo sociológico antigo de propriedade, cujo estereótipo vem sendo banido, com a ascensão da mulher à conquista de si mesma. Até os anos 60 a mulher foi tida como objeto sexual, fardo nos ombros do marido. A figura do macho, caçador, senhor de muitos leitos, também foi amainada. Cresceu em sabedoria, e em recente pesquisa ficou demonstrado que os homens mais informados, mais cultos, não se dão a traições banais. Isso é crescimento, mudança de valores.
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A medula, o nosso tecido mais nobre, que se encontra preenchendo o conduto da coluna vertebral em forma de tutano, é a responsável, em sua parte anterior, pela transmissão dos movimentos locomotores e na parte posterior pela transmissão da sensibilidade. Se sofremos secção total da medula por tiro, acidente ou até mesmo por vírus, teremos enclausurados os movimentos locomotores, bem como a sensibilidade.
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Mesmo assim, apesar de estarmos com deficiência, fisicamente estamos vivas. Resta-nos o cérebro pensante, criativo e, por vezes, escandalosamente sensual.
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A primeira noite de novas núpcias, depois de paraplégica, pode ser dolorida, com o passado gritando, desarrumando sem dó o nosso coração que, com certeza, deixa vazar a perda em mares de lágrimas. Mas isso é bom. Começa-se a carpir o terreno, na construção de veredas e atalhos.
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É preciso ultrapassar essa barreira. Libertar-se. Dar vazão ao sentimento. Deixar que as lágrimas escorram pela face e apascentem a alma na construção de novas maneiras de cantar o amor.
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O que fazer? Reconstruir! Erigir pirâmides e versos! Pensar grande! Resta-nos, ainda, agradecer! Fisicamente podemos satisfazer o parceiro e descobrirmos juntos outras maneiras, outros pontos eróticos . A tarefa a dois fica mais fácil e a solução mais agradável.
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A natureza é mesmo perfeita e o sexo é a sublimação do amor, o berço do eterno renascer... O berço da vida humana. Por isso cada um de nós foi feito de amor e por meio do amor numa doação coroada.
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O amor é um sentimento lindo! Daí, por consequência, a sublimação na união de corpos, mistura de genes, transferência mútua de energias que nos renovam sempre o prazer de viver, além da multiplicação da espécie que nos confere o poder de criadores, um dos fins precípuos dessa união. O ato sexual propicia muito prazer, amainando as desigualdades do casal, ajudando a construir a almejada felicidade.
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Compulsando compêndios de estudos médicos, certifiquei-me de que a mulher paraplégica conserva a condição de fertilidade, podendo plenamente engravidar, dar à luz e amamentar a sua cria.
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O sexo não deve ser profano e o seu exercício chega a ser místico, feito uma cerimônia litúrgica. Afinal foi Deus o seu criador.
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O desempenho sexual envolve o comando cerebral, medular e periférico, além das formas físicas do côncavo e do convexo.
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Entretanto, sexo não significa apenas contato genital. Ele está muito mais na cabeça, no coração e no amor que engloba tudo isso. Há, ainda, a criatividade que nos aponta outros meios, outras maneiras de fazer amor.
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Aprendemos a encontrar a essência do prazer de outras formas. Procuramos fantasiar e atentar para o que nos sobrou ileso, embora, nós mulheres, possamos satisfazer plenamente o parceiro, tendo em vista, anatomicamente, tudo se encontrar em forma, apenas sem mobilidade.
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A mulher paraplégica deve usar a sabedoria. Arranjar sempre uma maneira para que o clímax fique melhor. O desejo de amar já é amor. Tudo se manifesta no olhar, no suor, nos olhos, nas lágrimas, no aconchego, no estar junto sem dizer nada, na divisão de um copo de suco, na chegada estampada em passos. Tudo ouriça e cativa, faz o querer sempre maior. Quando há o envolvimento, as portas vão se esgueirando à frente cheias de oportunidades, de fórmulas mágicas peculiares para encantar o leito do amor. O momento faz a hora.
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Tudo está na maneira de pensar e na disposição para achar soluções. O contato físico, sexualmente falando, existe, sim, e bom, capaz de levar-nos à satisfação plena, o que eu costumo dizer: longe da terra e perto do céu.
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O amor, esse tão lindo amor, não se dobra a obstáculos e não se curva às intempéries da estrada. Mesmo após as tempestades, ergue-se incólume e altaneiro. Há sempre encantamento na partilha!
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Referindo-me à mulher paraplégica que nada faz para resgatar com satisfação a sua sexualidade, ouso dizer que é falta de autoestima e até de autoconhecimento, porque estar deficiente não significa estar morta ou assexuada. A mente e o coração estão ilesos, prontos para viver uma linda história de amor.
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O ato sexual envolve algo mais, além da penetração do membro viril. Se assim não o fosse, seria apenas fisiologismo. O ato de amar tem leveza, graça, ternura, afeto... Um pouco de céu passeando pela terra. “Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos”. (Bertand Russell).
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Escrito por Genaura Tormin e transcrito por Márcia Fernandes Vilarinho Lopes

4 comentários:

Suziley disse...

Oi, Márcia querida:
Não há acidente ou dificuldade que vença o amor verdadeiro!! Já conhecia esse belo texto da Genaura. Parabéns a você pela partilha, parabéns a ela também! Um lindo dia para você, beijos no coração :)

TÂNIA SUZART ARTS disse...

Belo depoimento, Márcia.
Lembrei de meu pai, que conviveu até os últimos dias com uma paralisia progressiva jogando-o a uma cama, a ponto de comunicar-se conosco por um olhar. A medicina naquela época engatinhava, vindo a falecer sem diagnóstico preciso.
Hoje, graças a Deus e a evolução da medicina, paraplégicos têm uma vida social, sexual dentro da mais perfeita normalidade.
Um grande abraço
Tânia Suzart

Amor feito Poesia disse...

Eu te ofereço flores
Como prova de amizade
Flores de todas as cores
Com cheiro de felicidade

Denise Pires

BOM FDS....Beijos meus! M@ria

Elaine Carvalho disse...

Que texto lindo e um depoimento emocionante. Só mostra que o amor está além do corpo, da matéria, do físico. Está dentro de nós e quando se há amor verdadeiro ele transpõe qualquer barriera. Parabéns.
Bjus
Elaine Carvalho